Sétima arte escrita por quem nada sabe de arte.

Thursday, April 06, 2006

O plano perfeito

Da filmografia de Spike Lee, eu lembro bem de Malcolm X e A última horas. Ambos tratavam do racismo, seja na liderança do controverso Malcolm ou no preconceito criminal contra Edward Norton e sua última noite como homem livre na Nova York recém atacada pela Al Qaeda naquele 11 de Setembro. Ambos têm seus momentos panfletários, tanto para o bem quanto para o "mal". Ambos são grandes películas.

Assim aprendi que o cinema de Spike Lee é verborrágico e bastante técnico. Tem primor nas câmeras, lida com elenco como poucos, enfim, uma gama de razões que transformam o diretor num integrante do top ten de muitos mundo afora.

"Ebola?! What the fuck..."


Quando vi O plano perfeito tive aquela mesma sensção narrada textos atrás com Match Point de Woody Allen: você sabe que é um filme de Lee, mesmo vendo algumas coisas que nunca tinha visto antes na filmografia do diretor. Exemplo disso talvez seja o roteiro. Tratando de um assalto a banco no melhor estilo dos grandes assaltos, Spike troca a questão racial pela informação. Afinal de contas, um banco abarrotado de dinheiro vale mais do que duas folhas de papel e um anel Cartier dentro de uma obscura gaveta no cofre? A quem interessa mais aquele documento, ao ladrão Dalton Russel (Clive Owen), ao detetive Keith Frasier (Denzel Washington), investigado pela corregedoria, à "negociadora" de assuntos obscuros Madeline White (Jodie Foster) ou ao dono do Manhattan Trust, Arthur Case (Christopher Plummer)? As questões pululam enquanto a câmera firme do diretor atua, os diálogos corrosivos se mostram pontuais e as atuações beiram a perfeição. Cada um ali é tão diferente e ao mesmo tempo iguais em suas metas. Não importa se branco, negro, árabe, judeu. O que vale é a informação da gaveta, que não tem raça, credo, mas vale milhões.

E é por esta gaveta que Russel rouba, que Keith precisa retomar seus status de bom detetive, que Madeline precisa confirmar sua posição de melhor no seu ramo e que Case faz o que for necessário para guardar um segredo, custe o que custar. Mesmo com muitos Benjamins verdinhos lá dentro, o papel é quem delimita. Diria o eterno Professor Jones (Sean Connery) que a pena é mais forte que a espada.

E tudo isso com Spike na cadeira, deixando um pouco de lado seu bom cinema político e mostrando que filma assaltos e capta diálogos impagáveis como poucos.

Nota: cinco estrelas na testa de Spike Lee